"Chegaram a Lisboa ao cair da tarde, na hora em que a suavidade do céu infunde nas almas um doce pungimento, agora se vê como tinha razão aquele admirável entendedor de sensações e impressões que afirmou ser a paisagem um estado de alma, o que ele não soube foi dizer-nos como seriam as vistas nos tempos em que não havia no mundo mais que pitecantropos, com pouca alma ainda, e, além de pouca, confusa. Passados tantos milénios, e graças aos aperfeiçoamentos, já pode Pedro Orce reconhecer na melancolia aparente da cidade a imagem fiel da sua própria tristeza íntima. Habituara-se à companhia destes portugueses que o tinham ido procurar às inóspitas paragens onde nascera e vivia, agora não tarda que devam separar-se, cada um para seu lado, nem as famílias resistem à erosão da necessidade, que fariam simples conhecidos, amigos de fresca data e tenras raízes.
Dois Cavalos atravessa a ponte devagar, à velocidade mínima autorizada, para dar ao espanhol tempo de admirar a beleza das paisagens de terra e mar, e também a grandiosa obra de engenharia que liga as duas margens do rio, esta construção, falamos da frase, é perifrástica, usámo-la só para não repetirmos a palavra ponte, de que resultaria solecismo, da espécie pleonástica ou redundante. Em as várias artes, e por excelência nessa de escrever, o melhor caminho entre dois pontos, ainda que próximos, não foi, e não será, e não é a linha a que chamam recta, nunca por nunca ser, modo este enérgico e enfático de responder a dúvidas, calando-as."
A Jangada de Pedra, 1986, edição de bolso, pág 93, Companhia das Letras, 1ª Ed. 2006
16/02/2009
Trecho do pior livro do Saramago, segundo ele próprio... repito, pior livro:
29/10/2008
Não me deixe ver as horas

Não me deixe ver as horas
Eu quero viver
Os relógios nos aprisionam
Nas entranhas da ansiedade
Encurtam a já breve existência
Entronizam objetivos adiáveis
Fazem-nos ver a realidade irreal da brevidade compulsiva
Não me deixe ver as horas
Ainda hoje quero apreciar a totalidade que me rodeia
Apreciar e vivenciar
Notar o gotejar do orvalho
Beijar um idoso
Abraçar uma árvore
Por favor
Não me deixe ver as horas
Robson
Foi necessário

Ah que sensação agradabilíssima
É preciso uma tempestade para que suceda-se um lindo dia de sol
A tristeza assolou-me, era necessário
Agora escuto o quiquiriqui das rosas na alvorada
Entendo todos os versos da 7ª sinfonia
Amo o simples fato de existir
Antigos equívocos eu nem sei onde se perderam
Sofra como sofri
Seja um suicida da existência
E depois viva
E depois ame
E depois iluda-se por vontade própria
E se a vida cair na rotina
Atire-se do alto dos prédios da prepotência
Deixe a ignorância invadir-lhe para depois encurralá-la
A bonança sucede a turbulência
E antecede o clímax da felicidade embriagante
Robson
28/10/2008
Incolor

Incoerência, intransigência, indisponibilidade, incompetência.
Essa dor de novo!
E dessa vez não parte de mim
um amigo está com o coração partido
uma amiga que eu já nem sei que é
um irmão perdido, para sempre
e eu é quem sofro.
Dessa vez o mundo me pareceu tridimensional, circular, tive todos os ângulos no mesmo ângulo, delirei, estive em todos os lugares, me perdi.
Acordei e quis ser diferente
uma câmera fotográfica surgiu do nada
e foi como veio
Inexplicável, indolor... Indolor?! Não! Doeu, para a vida toda.
Outro dia foram os cubos coloridos, certa vez uma danceteria no meio do quarto, dessa vez... talvez o olhar de deus... é, deve ser deus... ouço vozes; acordo desacordado, quem está aí? que voz é essa? ele está me chamando, de volta, mas não creio em você, só existe na minha ausência, na minha demência.
Cada vez mais próximo do eu;
e mais longe do entendimento.
20/10/2008
A glória e/ou a morte

Tenho assumido a opinião de que arriscar sempre vale mais à pena, que viver com velhos conceitos e deixar de arriscar e consequentemente perder a oportunidade de ser mais feliz, ou ao menos feliz, ou de ainda aprender bastante, seja através dos acertos ou dos erros, é tempo perdido, é regredir como ser humano tanto intelectualmente como emocionalmente, mas hoje me veio à idéia a possibilidade de errar na escolha, ou mesmo escolher o que é melhor e se perder na escolha, abandonar o que era certo e acabar por não conseguir se desvencilhar do que ficou pra trás. Aí vem o choro, a sensação de derrota, aquele sentimento de ter perdido para si mesmo ou para a vida... Mas acontece que escolhas são escolhas, sempre ficará algo de bom, ou muito bom, para trás e se as circunstâncias parecem não estar indo bem os únicos culpados somos nós, não por ter feito a escolha errada, mas por não ter tido sapiência ou agilidade para lutar com as adversidades. E tem outra: não há escolha que não tenha um lado bom. Há casos em que é preciso equilibrar o que ficou e o que virá, acertar ou errar é uma questão de ponto de vista. Os grandes sábios da história souberam anteceder fatos, preveram o que era, por vezes iminente, mas que poucos queriam aceitar e a gente tem um pouco de vidente também, basta ver o que está aí, analisar se estamos fazendo a coisa certa; você não pode plantar beterrabas e querer colher cenouras, as evidências de acertos ou erros estão diante de nossos olhos, cabe a nós mudar a realidade.
Robson
18/10/2008
A mídia, sempre ela

Presenciamos na última semana mais um ato criminal onde a mídia tratou de criar seus mártires do momento. A exploração desanunciada novamente invadiu nossas casas e a poluição visual de uma mídia sensacionalista se fez presente por toda a semana. Sou obrigado a criticar esse jornalismo infantil que não só transmite informações, mas trata de criar santos, por vezes deuses, que acabam eclodindo numa enxurrada de sentimentalismos incoerentes na população. O caso do ônibus da linha 174 no Rio, da invasão da casa de Silvio Santos e da menina Gabriela são alguns exemplos desse jornalismo que não se preocupa em passar a informação, o que ele quer é chamar a atenção, vender, ter audiência, ultrapassar padrões existentes e a informação torna-se mero acaso. Na semana seguinte mais uma pobre menina se tornará uma santa da mídia e nós o que temos com isso? Que me desculpem os amigos jornalistas que são culpados indiretamente por tudo isso, mas não consigo ver o que essa exploração visual nos traz de bom.
Robson
16/10/2008
O império

Durante a história a humanidade presenciou a ascensão de grandes impérios como o persa, o egípcio e o maior império da história antiga, o romano. Essas grandes máquinas de conquista e dominação influenciaram diretamente a vida dos povos conquistados, mudando modos e jeitos, línguas, comidas e bebidas chegando até mesmo a usurpar traços culturais de povos dominados que acabaram por criar lendas, muitas vezes distorcendo a realidade, endeusando conquistadores. Trazendo esse contexto histórico para a atualidade, estamos passando por uma fase crítica, onde o maior império já existente, o estadunidense, está à beira de uma derrocada avassaladora, jamais vista antes, pois quanto mais alta é a subida... Se a decadência dos EUA persistir, e até torço pra isso, presenciaremos uma miríade de valores e princípios na humanidade, pois essa nação detentora de tal título desejável, mudou, repaginou, usurpou, toda a cultura do mundo. Os antigos impérios podem ter exercido grande influencia sobre regiões abrangentes, mas não como esse atual, que domina praticamente 100% do globo terrestre e o que não impõe na população fica-se subentendido que é necessário para se ter uma vida melhor, pelo menos superficialmente. Os estadunidenses conquistaram o mundo por poder político, não por força bruta; por imposição de idéias e não por forças armadas. Cabe um adendo aqui de que essa crise só chegou ao nível em que está por puro boato, fofocas de que essa ou aquela grande empresa falir-se-ia, e pelo preciosismo americano que decidiu valorizar cada vez mais os bens que tem e acabou por não ter clientes à quem vender. Em outras palavras, uma cultura que impunha, ou impõe situações, mas que tem estruturas fracas, talvez bonitas de se assistir mas que não garantem nada, que promete muito e que talvez realmente confirme esse muito mas que não pensou o que aconteceria se todo mundo tivesse esse muito. O ramo imobiliário, grande vilão da crise, valorizou demais seus bens criando uma instabilidade horrenda, onde todos querem se desfazer de seus valiosos imóveis. Concluindo, diria que talvez não estamos preparados para a derrocada do império americano, tudo será novo e quem saber usar de inteligência com as novas situações irá se sobressair.
14/10/2008
Ao menos tentar

Porque procurar a certeza de um porto seguro se as coisas boas da vida, aquelas que a gente vai realmente recordar no futuro, são feitas debaixo de tempestades e turbulências?
Estar certo do amanhã nunca foi sinal de felicidade
Medo de errar: essa parece ser a sentença
Sentença de morte
Certeza de não vencer, não arriscar, não progredir.
Se chegamos até aqui foi porque sobrevivemos ou subsistimos?
Sobreviver é a arte de enganar o fracasso.
Dar as costas ao que parece certo.
Se ficarmos preso a essa teia indubitável
a derrota estará logo ali, basta piscar os olhos e mais uma vez a fé será culpada.
A vida parece tão simples descrita num papel, mas é muito mais gratificante na vida real.
Arriscar e acertar é como não saber de onde vem tanta sorte,
é atirar-se no abismo do comodismo e publicar a façanha,
é brincar com fogo sem medo de se queimar e acabar moldando o mais belo dos cristais.
Cristal esse traduzido em vitória, se receios e principalmente, sinal de felicidade.
Robson
18/09/2008
Tempo, Tempo, Tempo...
Quanto mais eu vivo, mais tenho a certeza de que só o tempo pode nos trazer as respostas que buscamos. Muitas vezes queremos dizer para nós mesmos que amadurecemos, que somos melhor, que esquecemos um amor, que agora sim a mágoa foi deixada de lado; mas na maior parte das vezes isso não passa de uma máscara, algo que negamos ao extremo e que chegamos a acreditar ser verdade. O tempo, e somente ele, nos dirá se o amor valeu à pena, se a mágoa ou o preconceito foi deixado de lado, se o mundo realmente pode esperar algo mais de nós. Me sinto obrigado a relatar isso em solidariedade a um amigo, que está passando por uma fase brava... lidar com assuntos do coração nem sempre, ou melhor, quase nunca é facil. Mas o que eu posso dizer é que sejas paciente, não espere uma hora ou um semestre, apenas espere e se lhe for cabível, leia Shakespeare em seus dois brilhantes poemas Um dia a gente aprende e Eu aprendi...
14/09/2008
Quem sou eu

Difícil argumentação; mais fácil seria responder: de onde viemos? Para onde vamos? Estamos sozinhos no universo? Poderia dizer que sou o Robson, mas quem somos na inércia, antes de tudo? Eu sou muito melhor do que era a 10 anos, melhor do que era ano passado e um pouquinho melhor do que era a 5 segundos. Melhor intelectualmente, mais compreensível, menos revoltado, menos ignorante mais apaixonado pela vida, pelas pessoas desse mundo e cada vez mais me desgarrando do que é fraco, emocionante e vazio... É isso mesmo, a emoção remete a fraqueza, não quero isso pra mim. Mas isso já está consumado, não me preocupa mais, o problema agora é ter certeza do que acredito. Tenho certeza que o mau de Deus existir é a religião. Se nunca se tivesse cogitado a existência de Deus (e consequentemente da religião) muitas guerras teriam sido evitadas (ou não) e a morte de inocentes seria menor. Mas fica difícil imaginar um mundo sem Deus, como teríamos atravessados os séculos sem essa necessidade. Deus é uma lacuna necessária no ser humano, como a imagem de um pai e de uma mãe, mas a verdade é que quando se leva à extremos essa "necessidade", ou qualquer outro extremismo, as coisas tendem a não dar certo. É realmente quando eu conseguir responder com convicção em que acredito, estarei mais perto da resposta de um milhão de dólares: Quem sou eu. Mas por enquanto posso dizer que sou pouco maleável, teimoso e calculista. Por vezes um louco mas esse é um ponto crítico. Louco? para o senso comum sim, mas não conheço ninguém que seja normal. Insisto na opinião de que a loucura faz bem, não só para mim, mas para todos. O mundo seria um lugar muito melhor para se viver se as pessoas deixassem certas barreiras sociais de lado e fizessem o que, por vezes, dá vontade de fazer, como beijar, pular, rolar na grama num dia de sol, pular nas poças, falar com um desconhecido, abraçar uma árvore... Pequenas coisas que me fazem falta. É difícil, mas um dia sai o Eu Te Amo eterno e irretocável, incalculável e inobscurecível. Margeando a conclusão, tento ser eu mesmo, dentro do que o outro me oferece; estenda-me uma mão que eu lhe darei um abraço, tente ser feliz e será eterno; quem disse que existem coisas impossíveis? Impossível é acreditar que não posso fazer tudo ser diferente.
Robson Siqueira


